Choque do Presente

Em literatura, cinema ou no universo das bandas desenhadas, eu sempre curti uma "distopia". Uma visão sombria de um futuro punitivo para a nossa cruel negligência humana... Mas confesso que nunca imaginei que iria vê-la acontecer de verdade, mesmo depois de tantas guerras, crises e conquistas. Penso que devíamos ter aprendido mais com
a nossa história. O curioso, é que, com exceção de algumas zonas em conflito,"oficialmente" o mundo está em paz. Mas mesmo assim podemos identificar no globo, várias características distópicas ocorrendo a nossa volta, tais como nas obras: "1984", "Admirável Mundo Novo", "Choque do Futuro", "Fahrenheit 451" entre outras… Identificamos na nossa realidade, sombrias previsões destes livros que estão a acontecer, inclusive até em alguns países que declaram-se como democracias laicas. Enquanto você lê estas linhas, nalguns sítios deste planeta está a ocorrer: a proibição de publicações e leitura de determinados livros, a censura de exposições de arte, crenças fundamentalistas a substituir conceitos científicos, gentrificação e monetização do indivíduo, destruição sistemática do meio ambiente, segregação econômica e racial entre povos, além de outras aberrações em nome da nova ordem que quer tomar o universo para si. Tudo isso passa-se sob o véu da ilusão de que existimos numa comunidade globalizada e tolerante onde desfrutamos da opção da "hiper-escolha", tão valorizada no chamado, mundo livre. Livre para o capital, só se for, porque neste cenário, está cada vez mais difícil para o indivíduo existir na sua plenitude sonhadora. Se o que era ficção tornou-se real, fique atento, pois nesta lógica, em breve você será a ficção, um mero dado a ser acrescentado no grande arquivo da máquina. Ouvi dizer que sonhar nos mantém fora do alcance da máquina. Mas sonhe em estado de vigilância, porque a máquina não dorme.
Abaixo, tomei a liberdade de extrair um trecho de "Tubarões Voadores", uma HQ/BD do álbum, "Território de Bravos" do Luiz Gê de 1993, que muito me influenciou e ainda me encanta.

"Afinal, esta é a harmonia da vida. Por isso feche portas e janelas, Joãozinho! Não adianta nada deixar a janela apenas entreaberta... As janelas devem ter grades e as portas, trancas... As trancas, cadeados... E os cadeados, fechos de segurança. Pois no coração do prudente descansa a sabedoria."





















Nesta história, tubarões com capacidade de voar, não encontram muita resistência para alcançar suas vítimas, representadas pela figura do cidadão comum... Numa alusão a um mal improvável, mas furtivo que paira sobre nosso mundo palpável e ordinário. Entretanto, hoje vivemos em ilhas com fronteiras sutis e oportunas, que abrem-se ou fecham-se ao sabor das marés econômicas e políticas... Marés que trazem ameaças quase invisíveis, mas que trazem também mensagens em garrafas, notícias de outras ilhas, de outros tempos que o oceano virtual insiste em misturar dificultando a clareza de sua compreensão. Cabe a nós, com a prudência de nossos corações decifrá-las.