Belles de Jour















Les Belles de Jour é o novo projecto artístico de Sama, e insere-se claramente numa esfera sociopolítica reactiva, através da tensão formal e física resultante da colagem de títulos de notícias, recortados dos jornais e posteriormente colados em composição com monotipias que o autor cria previamente, num processo criativo devedor tanto da estética DIY como das vanguardas modernistas.

Para isso contribui decisivamente a técnica de reprodução escolhida pelo autor: a monotipia, técnica essa que consiste na criação de um desenho e/ou mancha de cor numa superfície lisa que depois é impresso numa folha, obtendo-se assim uma prova única desse mesmo trabalho (o prefixo mono, em latim, significa único). Sendo uma forma de arte espontânea, tem quase sempre resultados imprevisíveis e por isso experimentais.

Devido a estas singularidades, os conceitos de “erro” ou “acidente” são aqui assumidos como parte do processo, deixando mesmo de fazer sentido procurá-los nas várias manchas e linha obtidas. E esse carácter único é por vezes acentuado pelo autor através do desenho na própria impressão, subvertendo assim as “regras” subjacentes a esta técnica artística na conjugação interdisciplinar de vários mediums.

Depois da passagem do desenho para a prova, o que fica é o reflexo em espelho, por vezes translúcido, desse mesmo desenho. O resultado visual é uma espécie de cruzamento bastardo entre um Teste de Rorschach e uma fotocópia, com as frases recortadas a darem novos significados às imagens. No fim há a possibilidade de mais impressões, é certo, mas serão já impressões fantasma, cada vez mais ténues e difusas.

Sentem o ruído? Mergulhem nele. — André Azevedo