Noite & Varanda


















Que pensamento um homem tem antes de dizer à mulher amada que ele vai morrer?
A noite era quente, no limite do insuportável. A camisa de malha e a surrada calça jeans estavam empapadas de suor. Calor e nervosismo. Não era capaz de evitar os dois opressores.
Andou devagar até a pequena varanda da velha casa de fazenda, onde Val morava com seu avô. A moradia abrigava um par formado de parantesco e perdas mútuas. Ele enviuvou aos trinta anos. Seu filho faleceu aos trinta e dois (e a nora aos vinte e sete) quando a neta tinha apenas quatro anos. A menina cresceu tendo pais em retratos gastos. Os dois mal se falavam. O velho já estava morto, apenas respirava entre murmúrios. Só esperava o momento de partir. E ela tinha Johnny.
Johnny, que tremia como uma criança ao bater na porta que a moça abriu esfregando o olho sonado. Olhou para o jovem bonitão que brilhava debaixo da luz fraca da varanda. Deu um suspiro.
- Essa gomalina no seu cabelo é ridícula!
Deve ter ficado vermelho porque ela ensaiou um sorriso. Saiu em silêncio e fechou a porta para não acordar o avô, apesar de saber que pouca coisa o faria. Sentou-se na mureta de madeira e ficou observando o namorado de camiseta suada. Preferia que Johnny tivesse vindo para levá-la ao banco de trás do carro dele. Cheiro de couro. Se sentia viva com cheiro de couro. Sim. Preferia o banco de trás. Mas sabia que ele estava ali por outro motivo.
-É a corrida de amanhã, não é?
Ele fez que sim.
-E está achando que vai morrer, não é? É aquele sonho de novo, certo?
Novamente um aceno afirmativo. Val assoviou baixinho.
-É só não entrar no carro, Johnny! Esqueça essa coisa de corrida de garotos.
O brilho dos faróis de um caminhão percorreu a negritude de um horizonte invisível na estrada a 200 metros. Ele apontou para o ponto móvel. A voz era de uma ansiedade quase doce.
-Faça um pedido, Val!
Ela deu um assovio.
-Aquilo não é uma estrela cadente, Johnny! Só um caminhão! Mais um! Devo ter visto milhares por aqui! Mas circo, eu só vi uma vez, e televisão, umas quatro!
O rapaz a cortou abruptamente.
-Vamos embora, Val...
Ela olhou para ele com carinho. Até o desespero era bonito nele. Uma brisa agitou a saia da camisola. As pernas elegantes se desenharam no tecido.
-Vamos para onde, meu querido? Não entende? Estamos presos aqui!
Ele a segurou pelos ombros, como se, a deixando fixa nos seus braços, conseguisse fazer com que enxergasse com clareza. Ironicamente, mechas do cabelo negro e liso da moça desceram como cascatas sobre os olhos. Ela se desvencilhou e foi afastando os fios. A angústia dele crescia.
-Tenho meu carro, faça as malas! Vamos fugir! Vamos para bem longe! Vamos para outro lugar!
Ela acariciou o rosto do rapaz. O olhar de ternura misturava pena.
-Não existe outro lugar, Johnny! Só existe aqui!
-Vou morrer amanhã, Val! Sei que vou!
Dessa vez a tristeza macia era dela. A lágrima no rosto angelical traçava uma linha difícil de percorrer. Haveria um veículo na terra capaz disso?
-Você sempre pode não correr...
Havia um veículo. Seu dedo indicador seguiu o desenho molhado no rosto da moça. Ele a abraçou. Ela apertava o rapaz suado contra si. Cheiro de graxa. Gasolina. Aquela nauseante gomalina.
-Johnny! Eu te amo! Não corra! Não entre no carro! Esquece isso!
Mas ambos sabiam que ele iria correr.
Ele a beijou com paixão. Ela mergulhou no beijo. Beijavam bem. As bocas se entendiam como os corações.
A moça pegou o namorado pelo braço e o puxou para fora da varanda. Ele ficou sem entender. Ela deu um sorriso.
-Vamos para o seu carro, Johnny! Quero couro! Quero cheiro de couro!
Johnny riu. Val era mesmo como o calor da noite. A beleza dela só dava uma certeza ao rapaz: estava vivo. E enquanto outro caminhão percorria à distância, Johnny fez o mais intenso pedido às luzes, tão solitárias quanto eles, para continuar vivendo mesmo se morresse... Mesmo se morresse...


(Conto de Ricardo Soneto, livremente inspirado no livro, "A Balada de Johnny Furacão".)