Ana precisa esquecer



segunda-feira, 29 de agosto de 2011



Ana não queria lembrar. Mas ao mesmo tempo queria. Lembrar de modo recorrente era uma forma de se punir. Ana merecia punição. Ela havia matado o gato. Na ocasião, estava com onze anos, cursava a quinta-série e estudava numa escola particular a duas quadras de seu prédio. Atirara umas pedras ou uns paus (como saber com exatidão se lá se iam vinte e dois anos?) num gato preto no telhado. Fora induzida pela gritaria e brincadeira dos colegas, que também atiravam e que, estranhamente, se regozijaram não apenas com os arremessos como com o corpo morto do gato, que caíra. Naquela época (disso Ana lembrava bem, como esquecer?), perdera noites sucessivas de sono e os pais haviam estranhado, levando-a ao psicólogo, afinal, criança com insônia não pode ser normal se nem tem contas pra pagar (ela revivia aqueles dizeres com uma raiva morna) e quando enfim, dias depois, conseguira dormir, era acordada várias vezes durante a noite por horríveis pesadelos. Seu pensamento já era inquieto e veloz àquela época. Se num momento ela pensava que matara o pobre do bicho que não fazia mal a ninguém, já no momento seguinte, ponderava e chegava à temporária conclusão de que era impossível que um mero galho pudesse matá-lo daquele jeito, tão rápido e certeiro. Mas matara sim. E por que o gato não fugira? Gatos, quando incomodados, quando perturbados, fogem, somem, arrepiam-se, mostram os dentes. Mas o gato estava lá e lá continuou, e as crianças berravam e urravam e riam. Talvez já estivesse adoentado. O gato, debilitado, não teria forças para fugir. Nem sequer fizera um movimento de retirada. Mas matara o bicho, matara, matara, todos viram, havia testemunhas, acusaram-na rindo ainda mais, “Ana matou o gato! Ana matou o gato”, matara o bicho sim, não tinha como fugir daquilo, fingir a si mesma que não, era impossível inventar argumentos contrários, aduzir fatos novos, alegar inocência, matara o gato e depois sonhara que se transformara nele, que virara um gato acuado e sujo, que ninguém gostava dela enquanto gato, que passava fome e frio e solidão, que lhe restavam telhados mais decadentes do que o de sua antiga escola.
Mas matara o gato? Talvez o bichano estivesse mesmo moribundo, padecendo de alguma moléstia que só um bom veterinário poderia diagnosticar e curar. E ali, o pau que fora lançado diretamente da mão inconsciente de Ana fora apenas a gota d’água de algo que fatalmente aconteceria, minutos a mais, minutos a menos. A responsabilidade de Ana talvez fosse ter apressado um processo que não poderia ser evitado. Era como se tivesse sacrificado um bicho que não tinha salvação. E, portanto, era como se Ana tivesse salvado o bicho de um sofrimento atroz e mudo (não lhe haviam dito que o gato, quando muito cheio de dor, fica quieto e com olhar triste? Não fora a amiga Vivian que lhe contara isso ao relatar como Vuvu, seu gato branco, gordo e bom, perdera o rabo manifestando apenas silêncio e tristeza?). Não, Ana não havia matado aquele belo felino negro. Ele já morreria de qualquer jeito. Salvara o bicho de uma dor dos gatos, uma dor que o gato calava profundamente esperando tudo acabar. Aliás, pusera-se mais ainda na mira dos paus e pedras que a criançada arremessava, doido para morrer logo, praticando uma espécie de eutanásia felina sem ser dar conta de que aquilo – eutanásia – tinha um nome e um conceito e uma polêmica entre os humanos. Era um gato que, se bobear, renasceria como orangotango em sua próxima vida, tamanha a sua inteligência. Morrera, então, feliz. Ana não precisava sofrer tanto a vida inteira. Agora, com seus trinta e três anos de vida, eventualmente Ana ainda acordava à noite sonhando com aquele nostálgico gato de sua infância e eram sempre sonhos horríveis, Ana felina sofrendo torturas de crianças desmioladas com crânios desproporcionais e olhos pingando um óleo fervente. Ana não precisava impingir a si mesma aqueles pesadelos terríveis como forma de expiar um pecado covarde. Não houvera pecado. Ana podia dormir em paz.

(Conto de Vivian Pizzinga, livremente inspirado no livro, "A Balada de Johnny Furacão".)