Frágil




“O diabo necessita de almas para florescer”. Talvez essa frase, para a maioria das pessoas, não signifique nada. Mas eu, quando a li, sabia exatamente do que se tratava.
Porque eu sou uma dessas almas.
No nosso primeiro encontro eu devia ter uns seis anos, aproximadamente. Passava as férias na nossa imensa casa de campo, e numa noite fria de lua cheia acordei com os mugidos tristes de uma rês perdida. A luz da lua entrava pela janela, e foi então que eu o vi. Uma sombra negra, no canto mais escuro do quarto. Seus olhos brilhavam, ardentes, e ele sorria.
No dia seguinte, quando contei o que havia visto para a minha babá ela acariciou meus cabelos e disse que eu era um menininho com uma imaginação muito fértil.
Mas alguns anos depois aconteceu novamente.
No segundo andar da casa dos meus pais havia um corredor compridíssimo, de onde saíam quartos, salas de banho e salões. Numa das extremidades ficava o meu quarto; na outra, a grande biblioteca. Nesta altura eu já era um leitor voraz, e apesar de ainda ser um garoto costumava ficar acordado até tarde lendo escondido, com a lanterna acesa debaixo das cobertas.
Certa noite, quando todos já dormiam, percebi, através do cobertor, uma luminosidade estranha .
Ao descobrir a cabeça avistei, dentro da biblioteca, uma fumaça densa e vermelha que parecia sair do chão e, no meio da fumaça, Ele. Um pouco mais alto, magro como eu, negro, o olhar penetrante e o mesmo sorriso largo e perturbador.
No dia seguinte, não contei pra ninguém. Sabia que não iam acreditar no que eu havia visto.
Os anos foram se passando, e o meu desenvolvimento sempre coincidindo com Suas aparições.
Ele apareceu sentado sobre a minha cama, com a aparência de uma velha e com o mesmo sorriso debochado e olhar faiscante, e passei em primeiro lugar para a melhor faculdade de letras do país.
Meus contos começaram a ser publicados e a fazer sucesso, e Ele apareceu na forma de um gordinho de olhos apertados e sorriso congelado, com quem cruzei várias vezes em eventos literários.
No dia em que pedi a mão de minha mulher ele flutuou sobre a minha cama no escuro, uma massa preta, encurvada, sorridente e cínica.
E quando meus livros começaram a fazer sucesso no mundo inteiro foi como uma mulher branca, magra, desdentada e sempre com um cigarro na mão que ele surgiu, sorrindo ferozmente e olhando, cúmplice, para dentro da minha alma.
Eu sou um vencedor. Eu tenho tudo. As pessoas me perguntam de onde eu tiro tantas histórias fantásticas. Eu não sei, elas simplesmente vem. Amo minha mulher, e tenho duas filhas incríveis. Milhares de jovens no mundo inteiro compram meus livros, lotam teatros para assistir às minhas palestras e enfrentam horas e horas de fila, em pé, apenas para ter um autógrafo meu.
Eu tenho tudo.
E tenho mêdo.
Eu não me recordo de ter feito nenhum pacto com Ele, mas devo ter feito.
Talvez quando era um menino, e o vento forte do outono derrubava meus soldadinhos de chumbo. Lembro de ter xingado Deus, porque ele não fazia o vento parar. Lembro de ter pensado que Deus era fraco, e que era melhor ser amigo do Outro _ Ele, sim, devia ser poderoso.Eu quis jogar um contra o outro, para que o vento parasse de soprar. Eu era apenas um menininho…mas ainda lembro bem da minha surpresa ao reparar que o vento cessara.
Moro com a minha família em uma espécie de castelo , no campo.Acolho muitos gatos em minha casa, sinto que eles me protegem. Agora que minha filha mais velha está mais crescidinha, viajo muito com ela. Sinto, de alguma forma, que ela também me protege.
Tenho medo do preço que terei de pagar. Ele anda sumido. Atendendo à outros clientes, talvez.
Através das cortinas, ouço a empolgação de centenas de pessoas que me aguardam do outro lado. Desta vez, por causa da escola, minha filha não pôde vir.
Em instantes anunciarão meu nome.
Me sinto frágil.

Por Carmen Molinari